Jovens passam feriado em comunidade quilombola trocando experiências de permacultura

Jovens passam feriado em comunidade quilombola trocando experiências de permacultura
27 abr 2016

No meio da Mata Atlântica, na praia do Camburi em Ubatuba, um evento inesperado. Mais de 100 jovens se reuniram para uma vivência no litoral, durante o feriado de Tiradentes.

“AHHH! Já sei! Foro tudo chapá o coco de cachaça, fazê o caos na praia e dexá lixo pra tudo os lado!”.

Achou errado, amiguinho!

 

Camburi é uma praia ao norte de Ubatuba, que tem uma comunidade de origem caiçara e de remanescentes quilombolas. Ao longo dos anos, tiveram suas vidas e a posse de suas terras ameaçadas por grileiros(em sua maioria gente rica que quer ficar mais rica ainda, vai entender…).

Foram várias disputas judiciais e muita luta política até que conseguissem se reconhecer como território quilombola e (quase que totalmente) se livrar da ganância alheia. Mas o que os 100 jovens do início do post tem a ver com isso?

Pois bem. Eles – em sua grande maioria do meio urbano e de classe média – resolveram tirar o feriado para resolver alguns problemas junto à comunidade, aprender os saberes tradicionais e – por que não? – ensinar os saberes práticos e acadêmicos trazidos da cidade grande ao povo local. Cento e poucas pessoas abertas à troca, à experimentação de novas realidades e à difusão de novas técnicas.

A vivência foi facilitada pela Escola de Permacultura, que organiza diversos eventos do gênero; sempre visando à reconexão do ser humano urbano com as leis da natureza, os saberes tradicionais e as novas técnicas e práticas ecológicas.

Entre as principais atividades estavam a construção de uma Bacia de Evapotranspiração (ou Fossa de Bananeira) ratana casa de uma família local. Trata-se de uma tecnologia de fácil execução e de baixo custo para o tratamento do esgoto domiciliar. Aí todo mundo ganha: quem se voluntariou para o mutirão aprende a técnica e se torna apto a replicá-la; a família que habita na casa, antes sem saneamento básico de qualidade, agora pode cagar a vontade sem medo de ser feliz; a comunidade, que depende de uma água pura no rio, agora tem um pouco menos de matéria orgânica e possíveis infectantes na água. Um modelo foi implementado e está pronto para ser replicado. Quem sabe um dia não vira até política pública?

Outra importante atividade foi a manutenção da agrofloresta do seu Alcides. Esse descendente direto de escravos sempre trabalhou na terra, mas sem a consciência de que o modelo de agricultura que ele praticava não era sustentável a longo prazo. Em uma ação do IPEMA, o seu Alcides teve contato com uma técnica que não só ia aumentar sua produtividade mas também regenerar o solo, a fauna e a flora locais: a agrofloresta. Lá ele planta de tudo. Jussara, banana, mandioca, abacaxi, tangerina e limão, diversas nativas da Mata Atlântica. Aos poucos, o solo se recompõe e traz de volta toda a sua beleza; animais reaparecem e a vida volta a fluir.

Preto palestra para branco. Aquele ali é o seu Alcides. Descendente de quilombolas da região que fica entre Ubatuba e Paraty. Hoje no Camburi, praia ao norte de Ubatuba, o Alcides cuida da sua roça com muito carinho. Coloca muito amor no chão que dá seus frutos.

Aquele ali é o seu Alcides. Descendente de quilombolas da região que fica entre Ubatuba e Paraty. Hoje na praia de Camburi, ele cuida da sua roça com muito carinho. Coloca muito amor no chão que dá seus frutos. Ele tem orgulho do que faz. Recebe gente do mundo inteiro em sua casa. Pessoas que escutam sobre seus saberes e se voluntariam para o trabalho na roça que tem vista pro mar.

“Os melhores frutos que a agrofloresta me deu são os amigos. Amigos que costumam vir de outras classes sociais. De outras realidades. Mais urbanas e menos sofridas. Amigos que costumam ter a pele mais clara; como eu que vos escrevo. Amigos que têm muito a aprender e muito a trocar com a sabedoria da terra em forma humana que habita nos povos tradicionais.”

Outra importante ação que rolou na vivência foi a produção audiovisual coletiva de um curta metragem que abordou a temática da alimentação; as comidas produzidas localmente e os industrializados que penetraram o mercado local nas últimas décadas. Uma parceria com o Projeto Garoupa.

O que mais me chama atenção é o fator comum que une as pessoas que buscaram essa vivência: todas tomaram consciência da realidade atual e estão buscando alternativas para um mundo mais bonito para todos, assim como nós do PorQueNão?. São pessoas que largaram aquele emprego (“EMPREGO DE MEEEERDA!” – alguns bradariam) que dava estabilidade financeira, mas que estressava, aprisionava e que, acima de tudo, não fazia sentido nenhum. Pessoas que começaram a perceber que somos co-criadores da realidade; que nossas escolhas e ações pessoais estão diretamente relacionadas à construção da sociedade humana, do indivíduo ao coletivo. Pessoas que saíram do trilho e se perderam – como é bom se perder às vezes, né? – e que, aos poucos, se reencontram em um caminho muito melhor. Traçado com as próprias mãos. Caminhado com as próprias pernas. Rumo à construção de um novo mundo. Com muito mais amor, paz, beleza e alegria de viver.

Abaixo algumas fotos dessa vivência incrível! Clique nas imagens para ampliá-las.


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