Operação Carne Fraca: sim, ainda há alternativas para nos alimentarmos bem (fugindo das grandes indústrias)

Operação Carne Fraca: sim, ainda há alternativas para nos alimentarmos bem (fugindo das grandes indústrias)
20 mar 2017

Dessa vez a corrupção chegou à mesa: entenda a maior operação policial no país e como podemos evitar que nossa saúde continue pagando o pato.

A Operação Carne Fraca já é considerada a maior da história da Polícia Federal, contando com mais de 1.100 agentes. Na madrugada desta sexta feira, 17/3, a PF saiu às ruas para cumprir 309 mandados judiciais, sendo 38 de prisão, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão, em sete estados diferentes.

As marcas envolvidas são JBS e BRF, divididas da seguinte maneira:

jbs marcasBRF Foods marcas

O ESQUEMA
Tudo começou há 2 anos com a descoberta de que, no Paraná, alunos da rede pública estadual consumiram salsicha de peru sem carne. O alimento era, na verdade, preenchido com proteína de soja, fécula de mandioca e carne de frango.

De acordo com a PF, agentes públicos ligados ao Ministério da Agricultura, que tem poder de fiscalização, cobravam propina para facilitar a produção de alimentos adulterados. Em troca, emitiam certificados sanitários sem fiscalização.

As práticas fraudulentas incluíam: alterar rótulos e datas de vencimento, injetar água na carne para aumentar seu peso e tratar carnes com ácido ascórbico, substância potencialmente cancerígena. Ainda há provas de que as empresas falsificaram documentos para exportar carne para China, Europa e Oriente Médio.  

O QUE ERA USADO NA CARNE
Um dos produtos usados para minimizar o mau cheiro das carnes vencidas (ou seja, podres!) era o ácido ascórbico, que em grandes quantidades pode causar pedra no rim e favorecer o surgimento de câncer.

Além disso, para disfarçar a coloração, utilizavam-se produtos proibidos por Lei. De acordo com o delegado Maurício Moscardi: “Eles usavam ácidos e outros produtos químicos para poder maquiar o aspecto físico do alimento. Utilizavam determinados produtos cancerígenos até, para poder maquiar as características físicas do produto estragado, bem como seu cheiro”.

DESDOBRAMENTOS
Os estragos são imensuráveis: alguns dos frigoríficos envolvidos forneciam carne para outras marcas e não é possível, ainda, saber que caminho tomaram.

O secretário-executivo do Ministério da Agricultura informou que representantes da União Europeia e dos Estados Unidos entraram em contato com o órgão para ter informações sobre a operação Carne Fraca.  

Como não podia faltar, tem política no meio: segundo o delegado Maurício Grillo, dois partidos ganharam destaque como recebedores das propinas – PP e PMDB.

O presidente Michel Temer, do PMDB, fará reuniões ao longo da semana para tentar amenizar os danos causados pela operação, tendo em vista que o Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina do mundo e o maior exportador.  

AGORA A PARTE BOA
Nessa toada, vale destacar que o número de consumidores que optam por reduzir a carne do cardápio cresce de forma exponencial no mundo inteiro. No Brasil, segundo aponta reportagem de 2016 da Folha de S.Paulo, pequenas empresas de produtos vegetarianos crescem 40% ao ano.

Pra quem se assusta com a possibilidade de um suposto déficit de proteínas, um recado: atletas de alto rendimento, que necessitam de um pouco mais de proteína em suas dietas  em comparação com meros mortais como nós, têm optado por dietas restritas, sem alimentos de origem animal, obtendo resultados excelentes em esportes como fisiculturismo, triátlon e até UFC.

Repensar a carne no prato vai muito além do respeito animal (que é uma questão importantíssima, vale dizer). A opção de restringir o uso de carne na alimentação cresce por motivos de saúde, econômicos (sim, muitas vezes é mais barato cortar a carne do cardápio), ambientais e pela tomada de consciência sobre o consumo. Muito mais pessoas hoje se preocupam com a origem dos alimentos e produtos sem esquecer também do seu destino final – aliás esse ciclo altera diretamente nosso entorno. Por isso, junto com essa mudança nos hábitos, surge com força o movimento de consumo consciente, ligado a alimentos orgânicos, hortas urbanas, feiras livres etc.

Colhendo alimentos agroflorestais

Grandes indústrias já provaram que não fornecem alimentos, mas sim coisas que se parecem com comida. Em contrapartida, surgem cada vez mais alternativas a esse mercado tradicional. Veja algumas aqui:

  • Grupos de consumo consciente diretamente ligados ao produtor, a exemplo das CSA (Comunidades que Sustentam a Agricultura). Esse sistema funciona basicamente como um clube: os associados pagam uma mensalidade, recebem cestas de produtos orgânicos toda semana e ainda participam das decisões da horta. Saiba mais sobre essa alternativa aqui.
  • Conhecer e consumir mais PANC’s (Plantas Alimentícias Não Convencionais), aproveitando para adquirir maior conhecimento e aumentar seu leque de opções. Existem, hoje, mais de 10 mil espécies de PANC’s só no Brasil.
  • Comprar do pequeno produtor mais próximo. Já existem inúmeros aplicativos, sites, lojas, feiras e institutos fazendo essa ponte para você. Basta pesquisar e perguntar pros amigos. Ou pode perguntar pra gente mesmo, especificando onde mora. 🙂
  • Iniciar um grupo de pessoas interessadas em consumir de maneira mais consciente para juntos encontrar o melhor caminho na sua cidade ou bairro, gerando assim mais conhecimento, opções e debate.
  • Projetos e campanhas ligadas a agricultura e alimentação dentro das escolas, passando pelas universidades e até empresas.

O assunto é longo e, por vezes, extenuante. É um tema que envolve muito mais que saúde e nutrição. Diz respeito, além de tudo, ao contexto sociocultural que a pessoa está envolvida e isso, por si só, é um assunto delicado. Claro que é uma escolha pessoal, em última análise. Por isso fica aqui o convite para criarmos um espaço de debate consciente sobre o tema da alimentação e do consumo de forma geral.  

O coletivo PorQueNão? se disponibiliza para conversar sobre alimentação, mudança de hábitos e formação de grupos para que busquemos cada vez mais autonomia como cidadãos. Deixemos claro que, se você se sente sozinho por pensar diferente, acredite, você não está. Estamos claramente em um momento de aprendizado.

Que não esqueçamos esse episódio de indignação, mas que possamos tirar uma lição disso tudo e saber que existe luz no fim do túnel.

Escrito por Danilo Delia e Viviane Noda, integrantes do PorQueNão? – Canal de Mídia Interdependente. Veja mais artigos aqui!


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